11 julho 2018

Por que votar em Bolsonaro (segundo Janaina Paschoal)

Por: Morris Kachani

Para a advogada e professora da USP Janaina Paschoal, candidatura do ex-capitão do Exército dialoga com ‘depuração’ iniciada pelo processo de impeachment, do qual foi uma das artífices

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Já fazia tempo que eu vinha tentando destilar o discurso de quem apoia Jair Bolsonaro. Tentei em vão inclusive entrar em contato com o comitê da campanha, para conversar com o próprio. Mas assim como ele se recusa ou se recusava a participar de debates, ele também não parece muito afeito a conceder entrevistas.

Encontrei na advogada Janaina Paschoal uma interlocutora possível. Quando soube que ela declarou seu voto a ele, na semana passada, e que seu nome estava sendo cogitado inclusive para compor como vice da chapa, decidi procurá-la. Fui recebido na sexta de manhã, horas antes do Brasil jogar com a Bélgica, na sala de reunião de seu escritório, em um simplório prédio da rua Pamplona.

Era a segunda vez que a entrevistava. A primeira foi em 2013, depois de Janaina postar na rede social interna da Faculdade de Direito da USP, uma carta na qual afirmava que a manutenção dos protestos de junho de 2013, com a mesma frequência e natureza, implicaria cavar uma cova para a democracia.

Mais e mais, suas colocações continuam dividindo mentes e corações.

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“Eu sofri muito para fazer o impeachment da Dilma. As pessoas não têm noção. Foi questão de vida ou morte. E eu não quero perder tudo isso”.

“Não queria apoiar PT, não queria apoiar PSDB, não queria apoiar MDB, não queria apoiar alguém que tivesse uma visão muito à esquerda – isso eu já tinha claro na minha cabeça. Por exclusão, o que sobrou? Sobrou o PSC, que não está em nenhum escândalo, que tem uma linha mais à direita, talvez mais à direita do que eu seja, mas até aí ninguém tem situações 100% nunca”.

“Aí eu falei assim: ‘Mas, Deputado, se eu entrar no partido do senhor, o senhor vai me ouvir?’. Aí ele respondeu assim: ‘Mas a pergunta não é essa. A pergunta é se você vai me ouvir, porque tudo o que você pensa de mim, Janaina, eu penso de você’. E eu gostei dessa conversa”.

“Para fazer tudo o que precisa ser feito, o presidente deve ser alguém que não esteja preocupado com o que achem dele ou dela. E o Bolsonaro já provou que não está nem aí. Ele faz aquilo que acha que tem que fazer. Nós vamos precisar disso”.

“A cabeça de um militar é diferente em termos de colocar os interesses públicos do Brasil na frente dos interesses particulares”.

“Vai ser necessário enfrentarmos, inclusive, o Poder Judiciário”.

“A esquerda adora falar que o Bolsonaro é machista e misógino, mas no dia a dia os esquerdistas são até piores. A esquerda se entusiasma muito com a sexualização das crianças”.

“Qualquer coisa que se diga é vista como homofobia, como transfobia. E isso irrita quem não compartilha dessa histeria. O que está acontecendo é uma imposição para todos de um pensamento único”.

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Na semana que passou, você declarou publicamente seu voto no Bolsonaro. Eu queria aprofundar essa conversa. Queria entender o que está motivando esse voto e queria tentar entender a sua visão de Brasil.

Eu vou tentar te explicar, mas talvez eu tenha que detalhar isso. Eu perdi a conta de tantos partidos que me procuraram. Porque lá atrás, quando eu ainda estava fazendo o processo de impeachment, alguns poucos partidos me procuraram, inclusive me propondo sair para vereadora já em 2016. O que eu achei um negócio surreal – eu, no meio de um processo de matar, e o povo querendo que eu saísse para vereadora. Eu disse: gente, vocês não têm noção do que é isso aqui, eu não tenho a menor condição sequer de pensar. Então, tiveram alguns convites lá atrás, mas coisas muito pontuais.

Em março desse ano, que é quando chega perto do prazo final para inscrições nos partidos, isso aqui virou uma loucura, o meu telefone não parava. E eram partidos de todas as linhas ideológicas, alguns partidos inclusive de esquerda, que foram contra o impeachment, começaram a me ligar convidando para eu me filiar. Foi surreal.

De esquerda?

Eu cheguei a falar com um dos seus dirigentes um dia: o partido do senhor é um partido de esquerda, eu estou até honrada de o senhor estar me ligando, mas o senhor sabe o que eu penso sobre os temas que o senhor defende? Porque eu acho que há muita incompatibilidade. E eles me respondiam assim: não, mas nós somos democráticos.

Você tem como nomear alguns dos partidos?

Eu tenho um pouco de preocupação de nomear, porque é o seguinte: o cidadão propõe casamento para a moça, a moça diz não e depois sai anunciando… Entendeu?

Mas, vários vieram aqui. Vieram inclusive dois partidos, de gente muito legal, que eu gostei das pessoas, da conversa, da dinâmica, partidos pequenos que me propuseram sair para Presidente. E eu falei que achava que eles estavam exagerando.

Se eu saísse para Presidente, as chances de ganhar eram muito pequenas… E eu roubaria o voto de quem? Foi esse o meu raciocínio: de quem eu vou tirar o voto? Eu não vou tirar o voto do povo do PT. Eu pensei: se eu tirar algum voto, vai ser do Bolsonaro. Poxa, eu vou tirar o voto do candidato que tem alguma força para fazer frente a tudo o que eu, assim, venho combatendo. Isso não tem lógica.

Aí, eis que várias pessoas do PSL começaram a entrar em contato comigo.

Não queria apoiar PT, não queria apoiar PSDB, não queria apoiar PMDB, não queria apoiar alguém que tivesse uma visão muito à esquerda – isso eu já tinha claro na minha cabeça. Por exclusão, o que sobrou? Sobrou o PSC, que não está em nenhum escândalo, que tem uma linha mais à direita, talvez mais à direita do que eu seja, mas até aí ninguém tem situações 100% nunca.

Soube então que o Bolsonaro queria falar comigo. Foram dois minutos de conversa. Foi muito engraçado. Falei: “Deputado, eu estou nessa situação, vários convites para eu me filiar, mas esse negócio de política não é a minha praia”. Ele falou: “Olha, Janaina, filie-se. Pelo menos, você fica habilitada a concorrer a algum cargo político, e depois você decide”. Mas, ele não me convidou, nem fez alguma proposta. Ele falou: se puder ser no nosso partido, tanto melhor, mas se não for, habilita-se e depois você decide.

Aí eu falei assim: “Mas, Deputado, se eu entrar no partido do senhor, o senhor vai me ouvir?”. Aí ele respondeu assim: “Mas a pergunta não é essa. A pergunta é se você vai me ouvir, porque tudo o que você pensa de mim, Janaina, eu penso de você”. E eu gostei dessa conversa, porque ele não impôs nada, ele não propôs nada. Ele meio que falou a verdade. Que são duas pessoas difíceis, no sentido de ter muita opinião, de serem muito contundentes, muito transparentes.

E por que votar no Bolsonaro?

Ele é muito direto, duro e contundente. Eu acho que estamos vivendo um momento em que será necessário mexer com muitos interesses e para conseguir fazer isso é necessário, em primeiro lugar, não ter telhado de vidro. Para mim, isso é importante não só pela questão moral, mas pela possibilidade de ter alguém sem telhado de vidro e com capacidade de enfrentar tudo o que vai precisar ser enfrentado: em termos de interesses corporativos, em termos de crime em todos os graus, não só na criminalidade em massa, mas principalmente na criminalidade de poder. Michel Temer por exemplo tinha telhado de vidro…

E em segundo lugar?

É que para fazer tudo o que precisa ser feito, o presidente deve ser alguém que não esteja preocupado com o que achem dele ou dela, porque se for uma pessoa muito apegada à opinião alheia não vai dar certo. E o Bolsonaro já provou que não está nem aí se acham ele legal, se acham ele bonito, se acham ele inteligente. Ele faz aquilo que acha que tem que fazer. Nós vamos precisar disso. Nós necessitamos de alguém com força e coragem.

É mais uma questão de perfil, então?

Concordando ou não com tudo o que ele pensa – e nós divergimos em alguns pontos –, acho que ele tem o perfil que precisamos nesse momento. Este é um momento de transição. Se colocarmos na presidência um cidadão que vai querer colocar panos quentes nas coisas, nós corremos o risco de perder todo o trabalho feito. Eu sofri muito para fazer o impeachment da Dilma. As pessoas não têm noção. Foi questão de vida ou morte. E eu não quero perder tudo isso.

Você votaria na Marina Silva?

Até onde sei ela não é uma pessoa com escândalos. Mas, a Marina não consegue sequer reconhecer os crimes do Lula. É uma submissão emocional, um temor reverencial. Ela me decepcionou muito, porque eu votei na Marina em 2014, e onde estava ela quando o país pegava fogo? Ela não pode aparecer agora e querer o meu voto. Claro que eu adoraria ter o gosto de votar em uma mulher, mas não em uma mulher que foge quando a coisa aperta. Ela não tem o perfil que precisamos hoje.

E no Geraldo Alckmin?

Ele também nunca foi muito firme. Onde é que ele estava enquanto derrubávamos a Dilma? Ele demorou para apoiar e o discurso dele era sempre muito conciliador.

Você tem uma boa relação com o PSDB?

Eu criei muita resistência ao PSDB durante o processo do impeachment. Eu acredito verdadeiramente que, se não fosse pelo PSBD, o PT não teria se fortalecido como se fortaleceu. O PSDB sempre foi uma oposição de fachada ao PT. Para mim, o Fernando Henrique Cardoso sempre foi um entusiasta do Lula, tanto é que foi testemunha de defesa dele em todos os processos. Além disso, FHC foi opositor do impeachment até os momentos finais. E os escândalos envolvendo o Aécio Neves são imperdoáveis. Enfim, o PSDB já deu o que tinha que dar.

Existe a possibilidade de você ser vice do Bolsonaro?

Não houve esse convite.

Mas você se filiou ao PSL.

O convite que houve do PSL foi para eu sair candidata a Governadora. Eu agradeci e disse que não. Também recebi convite para sair como Deputada Federal. Eu agradeci e disse que não. Eu também tenho um certo medo de entrar na política e perder a minha autonomia.

O Bolsonaro é um cara capacitado para assumir a presidência do país? Ele tem currículo para isso? Sua atuação na Câmara por quase três décadas é considerada pífia por muita gente séria.

Eu estou indo muito mais pela personalidade dele do que pelo currículo. O presidente deve ser alguém de fora do estabilishment. Hoje, existem muitos partidos, muitas figuras públicas, muitos políticos interessados em jogar um grande pano quente em cima de tudo o que está acontecendo. Fora desse grupo e com grandes possibilidades de vitória, eu só vejo o Bolsonaro.

Há quem diga que votar em alguém “de fora do establishment” representaria uma ameaça à democracia.

Não existe isso, porque estamos tentando colocar alguém capaz de enfrentar o crime organizado no poder. Não estamos falando de enfrentar ideias. Lutar contra o crime é restaurar a própria democracia.

Existe no voto em Bolsonaro uma sensação de tentar restaurar uma ordem perdida?

Realmente há quem diga que colocar Bolsonaro na presidência é um risco à democracia. Eu vejo como o contrário. Nós estamos, na verdade, defendendo a Constituição Federal. Essas pessoas não podem continuar achando que podem tudo, que são donas dos cargos, que podem colocar gente nos lugares que elas quiserem, que podem continuar mancomunados em manter o poder, que podem continuar agindo ilicitamente e nunca serem alcançados.

“Essas pessoas” são quem?

Os que já estão sendo investigados, os que já estão processados, os que já estão condenados, os que já estão presos. E os que estão soltos por decisões, que, para quem conhece Direito Constitucional, são incompreensíveis. É muito grave o que está acontecendo. Vai ser necessário enfrentarmos, inclusive, o Poder Judiciário.

Bolsonaro falou de montar um Tribunal Superior com 21 juízes ao invés dos 11 atuais.

Eu acho que ele falou isso de modo simbólico para mostrar que precisamos mudar o que está aí, que se colocar mais dez ministros isso pode diluir um pouco o pensamento ou a maneira de fazer as coisas como estão postas, hoje. Pelo fato de o Bolsonaro não ter uma formação jurídica, ele vem com uma solução, vamos dizer, política.

Essa questão do Poder Judiciário também está muito latente.

Está, porque o STF é um órgão colegiado que está tomando decisões monocráticas em temas muito importantes. Por mais que os ministros sejam capazes, não se pode ter decisões tão discrepantes. O que gera insegurança, o que gera indignação não é o mérito das decisões, exclusivamente. É o fato de as decisões só favorecerem determinados personagens.

O Bolsonaro falou de um Ministério Militar, também. Ele traz essa questão do militarismo com ele.

Até por ser oriundo do Exército, ele tem muito essa questão da hierarquia, da disciplina. E o fato de ele querer trazer militares para o governo me parece uma valorização daquele princípio de pôr o interesse público na frente dos interesses privados – já que nos últimos anos nós temos visto o esmagamento do interesse público. Que político ou ministro coloca, hoje, o Brasil à frente dos próprios interesses?

Não seria um culto aos militares, achar que eles colocam os interesses do país na frente dos interesses próprios? Essa não é uma visão ideologizada do Exército?

A cabeça de um militar é diferente em termos de colocar os interesses públicos do Brasil na frente dos interesses particulares. Claro que existem pessoas boas e ruins em todas as instituições, mas os militares são formados para isso. Não que os civis sejam piores, mas o Exército resgata esses valores. E, já que o Brasil degringolou, resgatar esses valores me parece necessário.

Como você vê o crescimento dos movimentos que pedem por intervenção militar?

Alguns dos movimentos sociais que apoiaram o impeachment pediam intervenção militar, mas eram poucos. É até comum que esses grupos liguem me convidando para ir junto em atos, mas eu falo que não sou a favor de intervenção. Conversando com essas pessoas, parece que a questão da intervenção também é um pedido simbólico. É menos o desejo do estabelecimento de uma volta à ditadura e mais o desejo de que algo seja feito.

Como assim?

Esses grupos percebem que nós conseguimos tirar a presidente, mas agora o STF está desfazendo tudo. A Operação Lava Jato trabalhou, levantou fatos, conseguiu apurar e punir, mas quando chega no STF os ministros desfazem tudo. As pessoas ficam indignadas e dizem que algo precisa ser feito. E como não se sabe o que é esse algo, pede-se os militares. Então, eu acho que é um pedido menos raciocinado e mais um desejo de que algo seja feito.

Bolsonaro contesta muito do que se diz sobre o período da ditadura militar. Já enalteceu o coronel Brilhante Ustra e, em momentos mais exaltados, teceu de certa forma elogios à prática da tortura.

Eu não concordo com nada disso, até porque eu tenho uma formação jurídica de luta pelos valores democráticos e de reconhecimento dos crimes cometidos pelo Estado. Existem outros pensamentos que o Bolsonaro já externou com os quais eu também não corroboro.

Por exemplo?

O Bolsonaro entende, por exemplo, que é necessário diminuir a idade penal. Eu não acho uma boa ideia. Do ponto de vista da eficácia em segurança pública, eu não consigo ver vantagens na redução da maioridade penal, pois entendo que, ao colocar essa meninada na cadeia, estaríamos criando uma massa de mão de obra barata para o crime. Mais adequado seria punir condutas pontuais e significativas, como quando um adolescente comete latrocínio, homicídio ou efetivamente um crime sexual.

Então, quando decido votar no Bolsonaro, não é que estou aderindo a tudo o que ele pensa. Na verdade, estou comparando todas as possibilidades e concluindo que, hoje, ele é a melhor. Isso não significa que eu vou mudar o que penso – a não ser que alguém me convença, a não ser que alguém traga argumentos.

E no que diz respeito ao desarmamento?

Eu não consigo enxergar que o desarmamento seja bom em termos de segurança pública. Óbvio que eu não estou advogando para que as pessoas recebam armas aleatoriamente, que cada um tenha o direito constitucional ao seu fuzil. Não é isso. No entanto, faz diferença para o agressor (seja ele um assaltante, um estuprador, ou alguém que vai fazer um arrastão em um restaurante ou em um edifício) saber que está todo mundo desarmado. O bandido se sente mais confortável para praticar o crime.

Você lida bem com as declarações do Bolsonaro que beiram a misoginia?

Eu prefiro um cidadão que se expressa e que eu possa até combater do que os politicamente corretos que lascam a mulherada e assediam sexualmente. Eu falo porque sei o que acontece dentro das universidades: vários caras esquerdistas com discursos lindos e inclusivos, mas que olham para as mulheres como pedaços de carne. Ou seja, um bando de machista disfarçado de feminista. A esquerda adora falar que o Bolsonaro é machista e misógino, mas no dia a dia os esquerdistas são até piores.

E o famoso caso em que ele disse para a deputada Maria do Rosário que ela não merecia ser estuprada?

Aquela fala dele é extremamente horrível e grosseira, mas eu não vejo como uma fala criminosa. Eu sei que há um processo, que as partes vão debater, eu não estou aqui fazendo a defesa de ninguém. Mas, eu não vejo naquela fala uma apologia ao estupro. Aquela fala foi no meio de uma briga, em torno de uma situação envolvendo violência. E, veja: o Bolsonaro estava ali, teoricamente, defendendo as vítimas do estupro e a Maria do Rosário estava ali falando em nome dos direitos fundamentais dos agressores.

Na sua opinião o Bolsonaro não é machista?

De verdade, eu acho que todo homem é. A diferença é que alguns externam e outros disfarçam. Na nossa geração, todos são machistas.

Você acha que é importante ter mulheres em uma equipe ministerial?

Sim, mas é uma questão de representatividade. Essa é uma temática muito debatida no mundo, não só para questões políticas, mas, também, para questões criminais. E eu vejo que o Brasil ainda não está familiarizado com essa ideia. Uma das maiores críticas que o Temer recebeu quando assumiu a presidência foi que ele não colocou mulheres nos ministérios. E aí começou aquele embate entre a esquerda e a direita, com a esquerda detonando com o Temer, porque ele não indicou mulheres, e com a direita falando que isso é coisa de esquerdista. Mas, o meu ponto é: qualquer líder, não importa em qual cargo ele esteja, precisa ter consciência da importância da representatividade.

Polarização e discurso de ódio. O Bolsonaro é um propulsor do discurso de ódio?

O discurso de ódio, via de regra, é aquele que entra na apologia, na incitação. Particularmente, eu entendo que o discurso firme – e até o discurso agressivo, por mais duro que seja – não pode ser criminalizado, porque se não vamos deixar na mão de alguma autoridade até onde podemos ir e até onde não podemos ir. Agora, me parece que os líderes têm de ter consciência do poder e da dimensão do impacto que a fala gera.

Eu estou sentindo que recentemente o Bolsonaro está cuidando mais desse aspecto. Por outro lado, veja como é complicado: os discursos agressivos do Bolsonaro são vistos como discursos criminosos, enquanto os discursos agressivos do Lula, da Maria do Rosário, da Gleisi Hoffmann, do Guilherme Boulos, do João Pedro Stédile, são vistos como discursos cult.

Nós estamos em um tempo de polarizações. Veja o caso das exposições que foram fechadas, ano passado. Como falar de liberdade de manifestação?

Eu sou uma defensora muito aguerrida da liberdade de manifestação. Não no sentido de que se pode falar tudo e qualquer coisa, mas no sentido de que criminalizar o discurso traz mais ônus do que bônus.

As exposições jamais e de maneira alguma poderiam ser cerceadas. Mas, me parece que deveria ter um limite etário. Não podemos confundir as coisas. Se colocarmos o nosso autoritarismo para falar o que pode e o que não pode, isso aqui vai virar um inferno. Então, eu prefiro que seja tudo livre.

Mas, por exemplo: imagine uma peça teatral que avisa antes que os artistas estão nus, que vai ter uma dinâmica e que no meio do espetáculo (se os espectadores quiserem) eles também podem tirar a roupa. Normal, vai ver a peça quem quer. Agora, não dá para pôr criança, porque temos um ordenamento jurídico. São essas diferenças que precisam ser feitas. O adulto escolhe o que quer ou não assistir, mas temos que preservar as crianças.

O Bolsonaro é homofóbico?

Pode parecer brincadeira, mas eu ainda não o conheço. Agora, eu conversei com muita gente que tem proximidade com ele sobre esse assunto e essas pessoas me disseram que no convívio, no trato, isso não é real. O que talvez incomode o Bolsonaro seja o ativismo. Porque a gente vive muito o ativismo. Qualquer coisa que se diga é vista como homofobia, como transfobia. E isso irrita quem não compartilha dessa histeria. O que está acontecendo é uma imposição para todos de um pensamento único.

É que ele tem algumas opiniões pesadas sobre os transexuais.

É à moda antiga. O Bolsonaro é um homem de 60 e poucos anos de idade que fala publicamente o que muitos homens de 60 e poucos anos de idade falam internamente. Eu concordo com ele? Não. Mas, da mesma maneira: eu prefiro conversar com alguém que fala o que pensa do que com gente dissimulada. Eu não suporto gente dissimulada.

O que você pensa dos homossexuais, dos transexuais, da comunidade LGBT?

Eu não penso nada. A pessoa faz o que quiser da vida. Agora, se vierem com Projeto de Lei para menor de idade poder mudar o sexo eu não vou ficar neutra, mesmo. Igualdade entre as pessoas? Normal. Projeto de Lei para criança mudar de sexo ou para criança entrar com tratamento hormonal? Aí não. Porque daí estão pegando as crianças para defender bandeiras que não são delas.

Da esquerda tem alguém que você goste?

O Fernando Gabeira é de direita ou de esquerda? (Risos) Eu o acho a pessoa mais lúcida desse país. Ele tem uma clareza rara a respeito do que acontece.

Existe mesmo uma onda conservadora global?

Não acho que estamos vivendo uma onda conservadora. Acontece que o pessoal que estava dando as cartas abusou demais. Eles apenas estão perdendo o monopólio do discurso. Ninguém podia ousar divergir e se divergisse era taxado de reaça, de fascista. Eles perderam o monopólio do discurso e como eles não estudam, então não têm argumentos consistentes.

Você se define como alguém de direita?

A depender de onde eu estou, eu apanho sendo chamada de esquerdista. A depender de onde eu estou, eu apanho sendo chamada de direitista. Por exemplo: pelo fato de eu não querer a diminuição da idade penal, me chamam de esquerdista. Já pelo fato de eu ser contra o desarmamento, me faz ser direitista. A questão do aborto me coloca na direita. A questão da homossexualidade e da transexualidade me coloca na esquerda. E por aí vai.

A questão das exposições com faixa etária, te colocam aonde?

Acho que mais no centro, porque os esquerdistas querem liberar geral. O esquerdista respeita muito pouco a criança. Existe, hoje, uma sexualização da infância que é muito perigosa.

Na sua opinião, a esquerda sexualiza a infância?

Demais. A esquerda se entusiasma muito com a sexualização das crianças.

Como você lida com questões de fé e religião?

Toda a minha criação é no espiritismo. Só que eu tenho uma paixão pela religiosidade, pela espiritualidade. Sou casada com um católico, mas também gosto muito da fé dos evangélicos. Eu diria que a minha religião é como aparece em Mateus 18:20. Está escrito assim: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Também, na época do processo do impeachment, por exemplo, uma época em que eu passei tempos muito difíceis, eu recebia cartas de religiosos de todas as confissões: judeus, evangélicos, católicos, budistas, umbandistas. Aquilo me deu muita força e eu me sentia muito protegida.

Queria ouvir o que você tem a falar sobre a prisão do Lula. Você acha que é bom para o país o Lula estar na cadeia?

Não é questão de ser ou não ser bom. Eu acho que é muito triste um ex-presidente estar preso. Não me agrada. Mas, temos que começar a entender que as ações têm reações, que as ações têm consequências. O que me parece é que nós deveríamos manter os outros presos e que os inquéritos instaurados não poderiam ser arquivados monocraticamente. No caso do Lula houve um inquérito, houve um processo, houve uma sentença, houve uma apelação, houve uma condenação. Então, está sendo cumprido. Com relação aos demais, muitos têm foro privilegiado e estamos vendo o STF, pelo menos parcialmente, não comprometido com esse processo de depuração. Então, o Lula na cadeia é o certo. Errado é estarem enterrando o processo de depuração e gerando nulidades.

Que achou do imbróglio jurídico em torno de sua soltura, no domingo?

Como bem disse a Ministra Laurita Vaz, presidente do STJ, a decisão do Desembargador plantonista foi teratologia. O caso do ex-presidente já estava nas instâncias superiores e, no Brasil, todos estão bastante conscientes disso. Não há sentido em deferir liminar em HC referente a uma prisão decorrente de condenação, mormente quando a liberdade já foi sabidamente negada pelo STJ e pelo próprio STF. Entendo que o delegado agiu corretamente ao não cumprir e os magistrados Moro e Gebran agiram corretamente ao consertar a situação. Incompreensível o fato de o CNJ instaurar procedimento para apurar a atuação dos três magistrados, pois apenas um causou toda essa celeuma.

Você conseguiu conduzir o processo de impeachment, mas o governo que entrou deixou muito a desejar. Este ano, por exemplo, já é considerado um ano perdido. Enfim, qual é a sua avaliação do governo Temer?

O governo deveria  fazer as reformas que eram necessárias. E por que não conseguiu? Porque tinha telhado de vidro. Por isso eu digo que é preciso pôr alguém que não tenha telhado de vidro. Agora, não fui eu que coloquei o Temer. O PT escolheu o Temer para ser o vice pelas razões deles. Por que o PT escolheu justo o Temer? Porque foi conveniente.

Fonte: Estadão

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