04 setembro 2016

Qual a verdadeira visão política de Janaína Paschoal? Entrevista inédita

 


Por: Paulo Ghiraldelli

Pedi para a minha amiga, professora Janaína Paschoal, para perder algum tempo com uma pequena entrevista. Creio que só assim vamos parar de rótulos aqui e ali e entendermos melhor o que ocorre no Brasil atual. O que pensa a mulher que deu o tiro certeiro no mandato de Dilma?

1) Paulo Ghiraldelli: Como você vê o sistema de cotas étnicas no Brasil?
– Janaína Paschoal: Creio que o sistema de cotas foi mal organizado, como tudo feito pelo PT; entretanto, sou favorável a cotas para negros, não para compensar o passado; mas para mudar o futuro. Cada negro na universidade eh uma família inteira de negros que abre novas perspectivas. Em menos tempo, será mais comum ver negros em cargos de destaque, isso vai abrandar os preconceitos.
2) Sobre a maioridade aos 18 anos, você revisaria? Pensa numa política diferente para o menor infrator?
– Sou contra a diminuição da idade penal; se houver a redução, criaremos mão de obra mais barata para o crime organizado. Faz-se necessário olhar para os jovens dependentes de drogas e para os que tem problemas mentais e não recebem tratamento adequado, nas instituições destinadas aos infratores. Eu conceberia elevar o prazo de internação para os crimes mais graves.
3) Você gosta da Lei Maria da Penha? Ela funciona. Você pensaria em outros instrumentos jurídicos paralelos ou não? Você criminalizaria de modo especial a homofobia ou não?
– A lei Maria da Penha foi uma conquista, mas só saiu do papel a parte penal; a parte de assistência, sobretudo o abrigamento, ainda eh precária e deficiente. Não sou favorável a criminalização da homofobia, penso que, no que tange aos preconceitos, o Direito Penal tem um papel secundário. Não gosto da criação de grupos dentro do Direito Penal. Eh uma tendência mundial, reconheço, mas essa particularização não terá fim. O que vira depois? Os crimes contra os ciclistas?
4) “Feminismo” virou uma palavra controversa, você a adota para si? Você se vê como feminista? Ou isso, para uma mulher, já não importa mais?
– Se feminismo significar odiar os homens e tudo que seja feminino, eu não sou feminista. Se feminismo significar o empoderamento das mulheres, a ocupação de espaços, eu sou feminista
5) Na sua noção de democracia, você deixaria todos os partidos livres, sem restrições, ou preferiria algumas restrições? Há quem não quer partidos assim ou assado, ou mesmo partidos ditos nanicos. O que acha?
–  Esse tema é bem difícil, tenho refletido sobre ele. Tendo a defender a plena liberdade. Mas ainda não tenho uma resposta fechada.
6) Sobre a assalariamento das câmaras municipais e assembleias legislativas, o que você acha? Deveria haver um teto salarial, e menor?
– Não acho que a remuneração seja o ponto central. O ponto central eh perceber que o político deve servir e não se servir do poder.
7) Podemos conseguir dinheiro via impostos, via mecenato particular e de instituições (inclusive trabalho voluntário), ou simplesmente podemos achar que o mercado resolve o que o tem que resolver e o estado pode ser bem menor que o que temos. Nesse quadro, qual via você preferiria seguir, ao menos em tese?
– Sou simpática ao estado mínimo, na economia e na repressão. Com isso, desagrado direitistas e esquerdistas.
8) A liberdade de imprensa que temos e o sistema pelo qual rádio e TV podem ser entregues ao privado satisfaz você?
–  Qual seria a alternativa? O estado controlar? Se o privado é ruim, o controle estatal tende a ser pior.
9) Sabemos que o estado laico nada tem a ver com estado ateu. Mas você veria algum problema de aula de religião nas escolas públicas?
– Eu me considero uma amiga das religiões; se fosse uma orientação ecumênica, penso que não haveria grandes problemas; entretanto, dadas as dificuldades práticas para implementar, talvez seja melhor não ter. Minha disciplina Direito Penal e Religião, na USP, não ensina Religião, mas sim Direito Penal, diante das religiões.
10) Você vê a nossa polícia como violenta?
– Não gosto de generalizar. Os crimes devem ser punidos, não importa quem os pratique. Quando um policial executa alguém, ou tortura, passa a ser um criminoso e deve ser investigado, processado e punido. Só não acho justo estigmatizar carreiras ou instituições.
11) Acredita que o poder econômico no Brasil tem uma influência eleitoral para além do que é o razoável? Tem alguma ideia sobre possibilidades de restrição disso? A ideia atual das próximas eleições, da proibição de dinheiro de empresas ajuda ou não muda nada?
– O sistema eleitoral brasileiro está mais pautado em interesses do que na discussão de ideias. Vamos analisar esse novo modelo. Quem sabe …
12) Nos Estados Unidos, você votaria em Trump ou Hilary? Ou você gostaria de ter tido Sanders no Partido Democrata?
–  Não sei, só vivendo lá
13) Na política atual brasileira, você está contente com o quadro atual? Veja, essa pergunta é significativa no seu caso, uma vez que você, mais que muita gente, é bem responsável pelo que estamos vivendo.
– Acho que mostramos maturidade em todo este processo. Mas faltam líderes, pessoas dispostas a falar a verdade e perder votos; pessoas dispostas a fazer o que eh necessário. Os políticos ficam muito presos as pesquisas de aprovação e rejeição, isso eh uma pobreza.
14) A Lava Jato continua? Ou você acredita que as coisas, daqui para a frente, tendem a serem mais duras para os investigadores?
– A Lava Jato continua.
15) Você volta definitivamente para a sala de aula? (bem, você nunca saiu dela!). Ou tomou gosto pelos holofotes da política?
–  Se sair da sala de aula, morro. Tenho os pés no chão. Só entrei nessa história porque ninguém estava disposto a enfrentar as dificuldades em prol do país.
16) Você tem tempo integral na USP? Está orientando na pós? Ou você divide o tempo com outras atividades na advocacia? Como você vê as condições de trabalho do professor no Brasil, tanto na universidade quanto na escola de ensino básico?
– Eu não tenho dedicação integral. Acredito que o professor precisa da prática para não tirar o pé da realidade; oriento mestrandos e doutorandos, além das teses de laurea. O conhecimento é pouco valorizado no Brasil. A originalidade também. A vaidade faz com que as pessoas não queiram que seus alunos cresçam, floresçam. Vivemos, ainda, um tempo de vassalagem.
17) O que acha de candidatura avulsa, sem partido, como nos Estados Unidos?
– Entendo que candidaturas avulsas deveriam ser autorizadas; os partidos funcionam muito em torno de caciques, quase donos. Mas não eh um tema pelo qual lutaria.

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